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Bem-vindos à Zemanlandia

Bem-vindos à Zemanlandia

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 Encontrar treinadores nos dias de hoje que privilegiem o espectáculo e divertimento que deve ser um jogo de futebol em detrimento de uma óptica mais resultadista e pragmática na abordagem ao mesmo é uma realidade cada vez mais rara.
 Conseguir vingar uma ideia de jogo ofensiva num contexto competitivo que tem feito escola e história essencialmente pela sua concepção defensiva do mesmo, é uma tarefa que só está ao alcance de um verdadeiro Senhor do futebol: Zděnek Zeman.
 Depois de ter o seu período áureo de reconhecimento na década de noventa através dos seus trabalhos em equipas como a Foggia, Lázio e Roma, com alguns escândalos pelo meio quando colocou em cheque a Juventus ao acusar o clube italiano de recurso à dopagem dos seus jogadores – assunto e temática que é muitas vezes pura e simplesmente abafada, mas que toda a gente, ou pelo menos os mais atentos, sabem que constitui um verdadeiro flagelo e ameaça para a modalidade, tal como as apostas desportivas, – Zeman logrou, e já depois de vários trabalhos pouco conseguidos, voltar à ribalta do «Calcio» em 2011/12, quando subiu o Pescara da Serie B à Serie A italiana.
 O sucesso à frente dos «Delfini», levou a Roma a apostar novamente nos seus préstimos na temporada 2012/13 – e quem contrata Zeman está a contratar muito mais do que um simples treinador – até os resultados falarem mais alto e acabar por ser despedido quando estavam decorridas 23 jornadas: a AS Roma era 8ª classificada, tinha o melhor ataque da prova com 49 golos marcados contra 42 sofridos, o que representava a segunda pior defesa, curiosamente, ou não, só batida nesse registo negativo pela anterior equipa de Zděnek Zeman, o Pescara.
«Se marcares 90 golos, não importa quantos concedes.», é uma das frases conhecidas do treinador checo-italiano.
 Olhando o confronto que opôs o Internazionale ao Cagliari – clube que o contratou nesta temporada 2014/15 – em jogo a contar para a 5ª Jornada da Serie A, fiquemos com alguns momentos da primeira parte do encontro que acabou por ditar a vitória para os forasteiros (1-4).
Bem-vindos à Zemanlandia:


 Início do jogo e logo se percebe que estamos a assistir a algo diferente:
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 Qual a ideia de Zeman nestes pontapés de saída?
 Tornar a primeira posse num verdadeiro momento ofensivo com bola e presença no meio-campo contrário, não permitindo que a equipa adversária suba linhas no imediato.
 Em segunda instância e pelo facto da maioria dos elementos da sua equipa se encontrarem envolvidos, faz também com que desde o primeiro segundo se comprometam com o jogo, evitando algumas distracções típicas em que os jogadores ainda estão a sentir o pulso do encontro – inícios de primeira e segunda parte – ao mesmo tempo que procura explorar essa potencial fragilidade no adversário.
 Este tipo de saída voltará a repetir-se sempre que a bola for ao centro, ou seja, mesmo quando a equipa sofre golo como veremos mais à frente – quando o golo acontece também existe um período de descontrolo emocional momentâneo em ambas as equipas, pelo que se aplica a mesma teoria supracitada.


 Que não se espere das equipas de Zeman grande rigor ou disciplina defensiva, portador adversário sem pressão ou contenção em cima, largura e profundidade mal controladas, demasiado tempo e espaço oferecido:
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 Sempre fiel ao seu 4x3x3, bola entra no Lateral disfarçado de Médio-Ala Esquerdo do Internazionale e os três homens da frente do Cagliari, nem mesmo numa altura em que a bola já está no seu meio-campo defensivo, se esboçam reacção na ajuda.
 É o Lateral-Direito do Cagliari que sai da última linha defensiva e vai na contenção:

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 Entretanto a jogada continua a desenrolar-se e 10 (!).. 10 segundos depois o posicionamento defensivo do Cagliari ainda é este:
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 O Médio-Direito não sabe o que faz, se vai na compensação ao seu Lateral-Direito, se vai na cobertura ao Médio-Defensivo que na teoria saia na pressão/fazia contenção ao portador da bola se ..se.
 «Ai Zeman que eles vêm ai.. são três e vêm aos pares!»
 No banco do Internazionale, Mazzarri desesperava e pedia bola a entrar rápida na lateral:

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 Com o Internazionale a complicar, o Cagliari de Zeman não vai de modas, nem em grandes modos, bola recuperada e esticada na frente ao aperceber-se do balanceamento ofensivo do adversário:
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 Os dois avançados que se encontravam no ataque do Cagliari fazem movimento coordenado para o espaço dos Defesas-Centrais do Internazionale onde a bola vai cair.
 Ibarbo (Avançado-Direito), que seria o terceiro, tinha vindo em apoio e por isso havia dado sinal para a linha defensiva adversária subir:

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 Repare-se onde se posiciona o avançado do Cagliari percebendo em que zona a bola ia cair, ao invés da maioria que procuraria um espaço atrás da linha da bola, não só pelas questões do fora-de-jogo, como pelo facto de se o duelo fosse perdido a sua equipa ter desde logo mais um elemento atrás dessa mesma linha, não ajustou o seu posicionamento e ficou na expectativa a ver o que dali resultaria.
 Dirão que o golo nasce de uma situação meramente fortuita já que foi Nagatomo quem cabeceou a bola e deixou o avançado do Cagliari sozinho perante o Guarda-Redes contrário, tudo bem, mas o avançado da equipa forasteira merece todos os louros e mais alguns.. porque para ter sorte.. é preciso estar lá e a mentalidade incutida por Zeman em que só o golo importa acaba por dar os seus frutos:

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 A falta de controlo da equipa nos momentos defensivos, é, contudo, demasiado evidente, tentativa falhada em fazer linha de fora-de-jogo – mérito também para o Internazionale que colocou por norma dois homens em cima dos Defesas-Centrais do Cagliari, mesmo que o primeiro seja apanhado, não se faz ao lance e vai o segundo.
 Portador da bola adversário sempre com muito espaço e tempo de execução para escolher a melhor opção:

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 O Cagliari por vezes entra em «paranóia» quando se trata de defender, com vários jogadores a orientarem-se de forma diferente – processo caótico.
 A pouca ajuda dos três homens da frente do Cagliari está prevista, porque isso significa que a equipa tem sempre três elementos para a frente da linha da bola e já no meio-campo ofensivo quando recupera a posse – as alturas certas ou erradas para a adopção desse comportamento ou postura é que são muitas vezes mal geridas:

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 O portador da bola recebeu de costas, rodou e nem precisou de olhar para saber o que fazer: o avançado-esquerdo do Cagliari já havia iniciado a corrida para o espaço um instante antes na tentativa de explorar as costas do Lateral-Direito que se disfarça de Médio-Ala no Internazionale, Nagatomo:
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 Entretanto o Internazionale chega ao golo numa jogada de bola parada que tem tanto de ingénua na abordagem defensiva do Cagliari, quanto de duvidosa ao nível da decisão do árbitro – e por serem coisas que me escapam completamente, não abordarei.
 Prefiro pensar sobre o positivismo do futebol do Cagliari, por que razão fica Ibarbo para trás nestes dois momentos de bola ao centro, o do Pontapé Inicial e no de Reposição após o golo sofrido?

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 A meu ver deve-se sobretudo ao poder de explosão do jogador Colombiano do Cagliari, em caso de algo correr mal e a equipa perder a bola, é Ibarbo o mais capaz de comer metros em menos tempo – isto para lá de se constituir como uma linha de passe lateral viável para o companheiro que está ao centro, obviamente. 

 Atentemos agora nas triangulações laterais do Cagliari e que custaram a expulsão a Nagatomo em pouco menos de 3 minutos (!):
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 Bola sai do Lateral-Esquerdo, tocando curto no Avançado-Esquerdo do Cagliari que baixa em apoio, com o primeiro a projectar-se posteriormente para o espaço deixado livre.
 Médio-Esquerdo, ou do lado da bola, aproxima e em primeiro toque coloca no espaço para lançar em velocidade o Lateral-Esquerdo que vai aparecer de trás:

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 A jogada acabou por não ter seguimento, a bola transpôs a linha lateral e pelo meio Nagatomo ao perceber a superioridade que se criava travou em falta o Avançado-Esquerdo do Cagliari – 1º amarelo para o jogador japonês.
 Contudo, repare-se por que zonas já andavam os Defesas-Centrais do Inter (recorde-se que o sistema-base adoptado por Mazzarri é o 3x5x2), assim como, para o facto do Médio-Direito do Cagliari, portanto do lado oposto ao da bola, já se estar a preparar para entrar no espaço entretanto deixado livre em zonas de finalização.


 Segundo cartão amarelo para Nagatomo pouco tempo depois, com a aplicação da mesma dinâmica de flanco por parte do Cagliari:
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 Na jogada seguinte, equipas a jogarem 10 contra 10, uma vez que o jogador do Cagliari acabaria por ter que sair momentaneamente das quatro linhas devido à assistência médica de que necessitou após a falta cometida por Nagatomo:
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 Para onde vai o Lateral-Direito do Cagliari? E o Médio-Esquerdo o que faz em zona de finalização? Pois..quando é para atacar é mesmo para atacar com Zeman:
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 Médio-Direito dispara uma bomba, o guardião do Internazionale o melhor que consegue fazer é defender para a frente, onde com dois homens, o Cagliari acaba por conseguir chegar ao golo (1-2)..por intermédio do Médio-Esquerdo, Albin Ekdal, herói do encontro ao alcançar o «hat-trick» posteriormente – e não foi por mero acaso, digo eu.

 Entretanto na defesa do Cagliari, mesmo com mais uma unidade em campo, sempre muitos problemas, os mesmos de sempre como já vimos anteriormente:
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 Jogada seguinte, 1-3 para o Cagliari por intermédio do tal Médio-Esquerdo, Albin Ekdal, independentemente dos erros do adversário, nada aconteceu por acaso:
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 Ibarbo, autêntica mota pesada quando arranca, passa a bola pelo meio dos defesas do Inter – não conseguiria este momento de génio individual se antes não tivesse sido feito todo um trabalho de equipa – e explode no espaço, colocando posteriormente em Ekdal:
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 Se Ibarbo, por situações meramente aleatórias do jogo e fora da sua zona de terreno predominante ao longo desta primeira parte, tivesse entendido a tempo o que devia fazer, mais problemas para o Inter teriam surgido:
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 Agora, abordando o lance que originou a grande penalidade – entretanto falhada, resultando em pontapé de canto que viria a dar posteriormente o 1-4 para o Cagliari, devido essencialmente ao tal descontrolo emocional/desconcentração momentânea com inúmeras falhas de marcação dos jogadores do Internazionale após o seu guardião ter conseguido defender o castigo máximo:
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 Note-se a quantidade de unidades do Cagliari envolvidas no processo ofensivo, assim como, para as posições-base ou no papel dos jogadores em contraste com as assumidas naquele instante.
 Médio-Esquerdo toca no Médio-Defensivo que lança na profundidade o Avançado – no entretanto o Lateral-Esquerdo faz simulação e deixa a bola passar pelo meio das pernas.
 É a Zemanlandia.


 Quando as equipas de Zeman falham, normalmente, falham com grande estrondo, mas quando acertam, também acertam com ostentação.. ofensivamente falando, claro está.
 Ainda que possa acabar em último e com a pior defesa do campeonato – se chegar ao final da temporada uma vez que já estava na corda bamba antes deste jogo -, o treinador checo-italiano será sempre um verdadeiro campeão.
 É que Zeman entende, que para se ser o melhor, seja no que for, primeiro é preciso ser-se diferente..caso contrário será sempre igual aos demais.
 Aos 67 anos, Sr.Zdeněk Zeman pode até não ser – ou não é mesmo – o melhor.. mas nunca será apenas, e só, mais um.


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