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«Coño, Paco, qué poco romántico eres.»

«Coño, Paco, qué poco romántico eres.»

paco jemez


 Ex-Internacional A por Espanha e com passagens enquanto jogador por clubes como Córdoba, Murcia, Rayo Vallecano, Deportivo da Corunha, Zaragoza e Lugo, Francisco “Paco” Jémez Martín, 44 anos, versão treinador, assumiu os comandos do Rayo Vallecano no início da temporada 2012/13 até os dias que correm, depois de trabalhos de menor expressão ao serviço de emblemas como o Real Alcalá, Córdoba, Cartagena e Las Palmas nas divisões secundárias do futebol espanhol.
 Se no primeiro ano ao leme da equipa de Vallecas, Paco Jémez quase – ou conseguiu mesmo – cometer a proeza de apurar a equipa para a UEFA Europa League – entretanto e por problemas de secretaria tal não se veio a realizar -, já na segunda temporada e depois de passar grande parte da época nos últimos lugares da La Liga, como um dos piores ataques e defesas do campeonato, uma ponta final bem mais feliz no que a resultados e performance competitiva diz respeito, acabaram por ditar o sucesso do Rayo Vallecano na luta pela manutenção.
 A juntar ao supracitado, há ainda outro dado estatístico relevante como o facto dos «Matagigantes», nos últimos três anos, serem uma das equipas com maior percentagem média de posse de bola da Europa – pouco comum para um clube com os recursos, pretensões e aspirações como as do Rayo Vallecano, – tudo só possível devido a Paco Jémez que gosta de pensar grande, mesmo num clube pequeno.. ou pequeno clube, depende tudo de uma questão de perspectiva ou abordagem.
 Abaixo, fiquemos com alguns registos do jogo em que o Rayo Vallecano recebeu o Barcelona a contar para a 7º Jornada da Liga BBVA 2014/15 e que terminou com a vitória dos forasteiros por 0-2:


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 Sistema-base próximo ao 4x2x3x1, Baena mais posicional, Trashorras preocupado na saída e em fazer ligações com ataque, Bueno nas costas do avançado Léo, mas disfarçando-se facilmente como espécie de 2º avançado, Kakuta e Licá nas alas, trocam com o decorrer do encontro, Zé Castro lesionado, não estava disponível, ficando a dupla de centrais a cargo de Ba e Morcillo, Tito sobre a Lateral-Direita e Insúa na Lateral-Esquerda.
 Início do encontro e já os primeiros indícios do que viria a ser a história do jogo:
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 Portador adversário sem pressão ou contenção em cima, tempo e espaço para lançar bolas na profundidade e aproveitar a descoordenação completa da última linha defensiva do Rayo – repare-se na expressão corporal de Ba na segunda imagem.. ali a andar, com grande pausa, passeiozinho de fim-de-semana que ficar em casa é chato.
 A equipa de Paco Jémez, ainda assim, revelava competência nestes minutos iniciais na forma como condicionava as primeiras fases de construção do Barcelona, obrigando a equipa visitante a adoptar um estilo distinto daquele que está na sua génese:

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 Sem qualquer medo ou receio, mesmo que pela frente a equipa de Vallecas tivesse apenas e só o Barcelona, veja-se por que zonas andavam os 10 homens do Rayo no meio-campo contrário e ao risco que se expunham, inevitavelmente:
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 Na sequência da imagem acima, a equipa da casa iria conseguir recuperar a posse, voltando a perder a mesma pouco depois.
 Repare-se como, e caso a bola tivesse entrado em Iniesta no tempo certo, ficariam praticamente batidos – ou para frente da linha – 7 jogadores do Rayo ainda em fase prematura de transição:

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 Não entrou num primeiro momento, mas entrou num segundo, e agora atente-se na forma desenfreada como Ba aborda o lance, sem qualquer noção da exposição e do que está a acontecer, quando até tinha um companheiro nas proximidades do portador da bola.
 Por sorte, ou devido ao milésimo de segundo a mais que Iniesta levou a soltar, a jogada terminaria com pretenso fora-de-jogo de Neymar no lado inferior da imagem:

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 Todas estas incidências e ainda nem 5 minutos de jogo estavam decorridos, sempre com o Rayo a condicionar a primeira fase de construção-organizada do Barcelona e a obrigar o adversário a bater longo, sem soluções que não fossem de risco extremo ou com dificuldade de execução técnica considerável se quisesse sair apoiado:
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 Com os 10 homens em processo defensivo na sua pressão-zona mas… a efectuarem pressão pouco coordenada e eficiente.
 Este tipo de abordagem exige pressão não apenas na zona e eventuais receptores que por ali habitem mas, sobretudo, agressividade em cima do portador para que este entre em pânico e não lhe seja dado tempo para ver, esperar e meter a bola em condições em companheiros que estejam ou entrem no espaço fora daquela mesma zona.
 Mal Licá sobre a direita, nem se preocupou por um momento com o que se passava nas suas costas e com a subida de Mathieu – e sim, é um facto, falar é fácil, fazer é mais complicado:

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 Ofensivamente e com a quantidade de recursos que consome, obviamente que o Rayo também conseguia criar problemas ao Barcelona:
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 A defesa do Barcelona entretanto consegue fazer um corte de recurso, mas observe-se num segundo momento respeitante à mesma jogada a quantidade de homens do Rayo que já estão envolvidos naquele instante:
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 Defesas-Centrais do Rayo saem e desfazem linha, Defesas-Laterais ficam, portador da bola cheio de tempo e espaço… é a chamada cratera:
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 Ba a driblar para zona interior, perdeu a bola e ofereceu oportunidade de golo clara ao adversário, só evitada com recurso à falta e respectivo cartão amarelo.
 Muito bem, continua a fazer disso menino:

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 Ainda que decorrente de um lançamento de linha lateral para o Rayo, repare-se na quantidade de homens (18) em menos de 1/4 do campo, assim como, para o facto de na pressão-zona do Barcelona haver agressividade sobre o portador – como se constata pelo jogador do Rayo estatelado na relva, – contrastando com a dos seus oponentes, já abordada anteriormente, em que não raras vezes o portador adversário tem tempo e espaço:
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 Mais do mesmo em transição, pouca capacidade para efectuar pressão/contenção em cima sobre portador adversário e descoordenação de última linha defensiva, profundidade oferecida de bandeja:
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 Lembram-se da tal pressão, com controlo zonal efectivo e essas tretas no lançamento de linha lateral referido anteriormente?
 Novo lançamento para o Rayo do outro lado do campo, bola recuperada pelo Barcelona, sobra para Piqué fora da zona ou em cobertura, como preferirem:

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 Depois, foi só meter a bola a sobrevoar a zona para um jogador como Messi, que como sabemos é um péssimo jogador, principalmente a explorar situações deste género..golo:
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 Um minuto depois, novo golo, 0-2, quaisquer semelhanças com momentos anteriormente abordados é pura coincidência.. ou então não:
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 Insúa, provavelmente atraído pela promoção «100€ en Apuestas Grátis» ao fundo, esqueceu-se de que talvez, e só talvez, fosse melhor estar mais próximo do Defesa-Central do seu lado.

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 Olha, pronto, fartei-me, e só fico contente por Messi e companhia estarem em tarde desinspirada e não colocarem em cheque o positivismo do modelo de Paco Jémez – foram dois, podiam ter sido 4, 5 ou 6 como na temporada passada em Camp Nou.

 Posto isto, 0-2 ao intervalo, uma série de oportunidades concedidas ao adversário o que fazer? Ter calminha e ficar com cagufa? Isso não faz parte da ornamentação das equipas de Paco:
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 Sai Licá (Médio-Ala Direito no papel), entra Aquino para o mesmo lugar (viria a ser expulso por duplo amarelo aos 91′ e numa altura que já desempenhava funções de cariz mais defensivo) e sai Ba (Defesa-Central) para entrar Manucho (Avançado-Centro) – realmente a diferença entre jogar sem um Defesa-Central como Ba neste jogo e com mais um avançado não era muita.
 A equipa passou a assumir um sistema que se aproximou, por vezes, ao 3-1-4-2, com Baena preocupado em baixar para linha defensiva, saindo em construção quando possível, Trashorras com funções de transição e ligação, Bueno menos 2º Avançado e a pegar jogo mais atrás do que inicialmente, nas alas Kakuta e Aquino abertos a conferirem dinâmica de flanco, com responsabilidade defensiva mas procurando sobretudo fazer chegar bola à área contrária para aproveitar o poder e presença de finalização de Manucho e Léo.

 Aos 60′, e talvez como consequência disso, Morcillo vê o segundo amarelo e é expulso – e o que faz Paco? Olha para o banco com medo, mete mais um defesa e tenta compensar?
 Não, a perder, contra o Barcelona, ou seja lá quem for.. lo que será, será.


 Receio, cautela, ponderação, pragmatismo, frieza, especulação? Isso não é para alguém como Paco Jémez, um dos poucos treinadores mais apaixonados pelo jogo do que por si próprio.
 Para que se entenda bem influências, história e percurso de uma personalidade que merece destaque, não só por marcar a diferença num meio de iguais, mas também, pelo bem que faz ao futebol, aconselho vivamente a leitura da entrevista concedida há uns tempos ao jotdown.es e que acaba da seguinte maneira:
“Luego mi mujer me dice: «Coño, Paco, qué poco romántico eres». Y no, joder, soy muy romántico, pero para el fútbol.”


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