«La Sele» de Jorge Luis Pinto
«La Sele» de Jorge Luis Pinto

Independentemente do que venha a acontecer no que falta disputar deste Mundial 2014, a Selecção da Costa Rica liderada por Jorge Luis Pinto, já é uma das campeãs da prova disputada no Brasil.
Depois de se ter apurado como primeira classificada na Fase-de-Grupos onde constavam três antigos Campeões do Mundo, eis que «La Sele» conseguiu deitar também por terra nos Oitavos-de-Final uma Selecção Grega antiga campeã europeia.
Se no início da competição todos se riram quando Jorge Luis Pinto afirmou que a Costa Rica iria passar a Fase-de-Grupos e que a luta seria entre as outras três selecções, hoje, ninguém dúvida das suas pretensões.
Nas vésperas de um dos dias mais importantes da história da Costa-Rica em que a selecção norte-americana encontrará nos Quartos-de-Final uma Holanda chefiada por uma das mais sábias raposas do futebol mundial de seu nome Louis van Gaal, fiquemos com o registo de alguns momentos daquela que foi a chave do sucesso costa-riquenho até ao momento; o seu processo defensivo bem trabalhado naquilo que são as suas dinâmicas e variações:
Aos 9 segundos e Balotelli começou literalmente a partida em fora-de-jogo numa imagem que alude a um dos princípios que a equipa de Jorge Luis Pinto utiliza no seu processo defensivo – controlar a profundidade utilizando a lei do fora-de-jogo:

Aos 27 segundos Balotelli não continuava fora-de-jogo apenas e só porque os laterais não acompanharam a saída à vez de um dos elementos da linha de 5, outra das tendências da Costa Rica: salta sempre um jogador da última linha defensiva em cobertura ao meio-campo para pressionar o portador ou possível receptor em melhores condições de receber a bola entre linhas por forma a não deixar que estes enquadrem.
A única forma da Itália ter sucesso na jogada ilustrada abaixo caso os laterais costa-riquenhos tivessem acompanhado a saída dos elementos centrais da sua última linha defensiva, seria aproveitar a projecção do lateral-direito italiano identificado na imagem.
A bola acabou por ir para Marchisio que se encontrava em clara situação de fora-de-jogo:

Se Pirlo na imagem acima teve liberdade para enquadrar e conseguir fazer «jogo-de-frente», as oportunidades foram escasseando ao longo da partida graças a uma espécie de «quadrado de pressão» que visava sobretudo condicionar a saída pelos pés do maestro italiano obrigado a ficar de costas para o jogo:


Largura e profundidade controladas, faltando apenas e só Campbell numa disposição costa-riquenha mais próxima ao 5x4x1 – Joel Campbell que é de resto o elemento menos propenso a trabalho defensivo na Costa Rica, mas também ele, o principal dinamizador ofensivo na exploração de profundidade adversária em transição rápida:

Tipos de comportamento e condicionamento de construção adversária de primeira fase que de resto foram passíveis de serem observados igualmente e por exemplo no jogo frente à Grécia:

Assim como no que respeita à saída à vez de um elemento da última linha defensiva constituída por cinco elementos na tentativa de pressionar e não deixar enquadrar o portador ou possível receptor em melhores condições de receber a bola entre linhas:


Mas porque não existem modelos ou processos perfeitos e porque os erros vão acontecer sempre, Samaras atrai defesa costa-riquenho, a linha parte-se e é dada possibilidade de exploração da profundidade ao adversário:

Independentemente de ser discutível se o processo é mais ou menos eficaz, mais ou menos prático, entre outras questões colaterais e que dizem respeito apenas à ideia do seu treinador, nota para a identificação dos jogadores com o mesmo:

Bola entra no jogador uruguaio, enquanto o jogador costa-riquenho larga marcação e salta para ir na pressão – marcação imediatamente ajustada por um companheiro:


Deixemos agora um pouco a Costa Rica de Jorge Luis Pinto e comparemos ou debrucemos sobre a Selecção dos Estados Unidos de Jurgen Klinsmann da mesma confederação, entretanto já aqui abordada noutra circunstância e sobre a qual tenho ouvido ou lido os mais rasgados elogios relativamente à sua performance defensiva – elogios que de resto não concordo, nem pouco, nem mais ou menos.
Comparemos o que é defender bem – na minha opinião e lógica -, e o que é defender sem saber bem como:

Igualdade lateral, superioridade frontal, distâncias intra-linha para salvaguardar coberturas e espaço:

Vejamos agora a equipa de Jurgen Klinsmann:

O que ganha Beasley em desligar-se da sua linha defensiva e assumir o posicionamento que assumiu ao invés de deixar aquele tipo de marcação para o médio-defensivo que aparece entretanto em cobertura?
Assim e pela minha lógica, dá profundidade ao adversário, desprotege espaço interior e transforma uma situação que até podia ser de superioridade defensiva 3×2 em superioridade ofensiva 2×1 para o adversário.
E a igualdade frontal a que se expõe os Estados Unidos? Ainda para mais uma «igualdade não controlada» como é possível constatar na imagem seguinte:

Dito isto e tal como referi anteriormente, os problemas de posicionamento, precipitações e ingenuidades na abordagem de Beasley foram por de mais evidentes ao longo da prova, Beasley que de resto se trata de uma adaptação de extremo a lateral e que no Brasil se tornou o primeiro jogador dos Estados Unidos a representar a sua Selecção em 4 Mundiais.
Abaixo dois momentos que retratam de forma muito resumida aquilo que penso:

No golo frente a Portugal e independentemente da bola só ter chegado a Nani devido a uma fífia do Defesa-Central dos Estados Unidos, repare-se o posicionamento que Beasley assume.
Já no último jogo frente à Bélgica e embora reconhecendo a impressionante disponibilidade física para um jovem de apenas 32 anos conseguir fazer aos 92 minutos do prolongamento o «sprint» que fez, às tantas, não seria preciso tanto ao ponto de ficar literalmente fora-de-campo:

Nota ainda para o facto de Tim Howard ter batido o recorde de defesas durante o tempo regulamentar no jogo frente à Bélgica.
Por último, referir apenas que a Costa Rica pode até não conseguir responder ao teste holandês que se avizinha da mesma forma que o fez até aqui, mas, certo, certíssimo, é que já nem uma raposa da dimensão de Louis van Gaal conseguirá retirar o mérito à verdadeira obra levada a cabo por Jorge Luis Pinto e os seus muchachos.
3 Julho, 2014