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Futebol, o quanto me ensinas.

Futebol, o quanto me ensinas.

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 «Porque é que não deixas de ver futebol? Não te fartas? Isso é sempre a mesma coisa e não se aprende nada da vida.»
 São com estas perguntas e afirmações que a maioria dos meus familiares, amigos ou conhecidos, adeptos comuns de futebol ou de clubes em particular, mais me costumam confrontar.
 Na verdade é difícil explicar as horas de vida que já gastei – ou ganhei? – a ver futebol, afinal de contas, como dizem alguns, são só vinte e dois homens a correrem atrás de uma bola.
 Que estranha forma de viver.
 Pois bem, cada um é como cada qual, no meu caso, consigo aprender muito da vida através do futebol, tirando dele ensinamentos que me fazem respeitar o jogo ou a modalidade como mais nenhuma outra à face da terra.
 Tentando explicar – ainda que provavelmente não me consigam entender por não sentirem, nem têm que sentir, da mesma forma -, peguemos no jogo 1.FSV Mainz 05 x Borussia Dortmund a contar para 4ª Jornada da Bundesliga 2014/15 e que acabou com a vitória dos primeiros por duas bolas a zero.
 Sem nenhum motivo em especial que me fizesse acompanhar o jogo em questão a não ser o simples facto de ver futebol, dou por mim a reflectir sobre a relativização do sucesso, a linha ténue que separa o êxtase da conquista e a impotência do falhanço.
 Ora, vejamos:

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 Estão decorridos sensivelmente 66′ minutos de jogo e Okazaki fez o primeiro golo para a sua equipa, dono do Mundo naquele instante, todos correm para o abraçar.
 Alegria, superação.. momento sobrenaturalmente orgástico como descreveriam alguns aquilo que sentem após marcarem um golo.
 Entretanto, volvidos 2′ minutos desse momento de tão suprema conquista, vem a vida, ou o futebol, e obriga Okazaki a ficar de joelhos perante uma nova realidade, tão intensa quanto oposta em relação à primeira – o jogador japonês cometeu grande penalidade por pretensa mão na bola:

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 O isolamento da derrota em contraste com a companhia da vitória – quem é que se preocupou em encorajar Okazaki quando este falhou? Ninguém. O jogador japonês levantou-se sozinho.
 Mas, se este misto de emoções em tão curto espaço de tempo já parecia demasiado, o que dizer quando 1′ minuto depois, o guardião da equipa da casa defende a grande penalidade?
 Okazaki foi de zero a herói e de herói a zero, para voltar a ir de zero a herói com Loris Karius, guardião do Mainz, em apenas 4′.. 4′ minutos de futebol que eu diria que são verdadeiros 4′ minutos de vida.

 Por limitações da transmissão televisiva não consegui captar uma imagem da reacção de Okazaki em condições, mas foi idêntica à dos seus colegas destacados na imagem seguinte – como se de um golo se tratasse, um golo como o de Okazaki momentos antes:
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 Jurgen Klopp é um treinador que tenho aprendido a admirar e a respeitar ao longo do tempo, mas, até ele, que tem tanto de descontraído, quanto de louco, metaleiro, apaixonado e intenso, acaba por se deixar dominar muitas vezes pela grandeza de emoções que o futebol é capaz de gerar.
 Na altura da execução do penálti, o técnico alemão não conseguiu olhar para o lance, preferindo ficar virado de costas para a bancada onde estavam adeptos da equipa da casa:

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 No seu raio de visão, um adepto do Mainz (?), prefere ficar a rir-se na cara de Klopp ao invés de como alguns outros nas imediações, festejar a defesa do seu guardião.
 Naquele instante, pensei em como gostava de que o Borussia Dortmund desse a volta ao jogo e a transmissão televisiva voltasse a captar expressão facial do dito adepto após esse momento.
 Não porque achasse que precisasse disso para saber o que quer que fosse da vida, mas sim, para tal como eu, sair do estádio como eu me levantei do sofá, mais do que com uma lição de futebol, uma lição de humildade e respeito apreendida, a mesma que não teve para preferir o sorriso de cinismo e desfaçatez perante a frustração do adversário à adrenalina da conquista do guarda-redes do seu clube ao defender aquela grande penalidade.
 Fez-me lembrar uma espécie de gente que prolifera pelos meandros do futebol e da sociedade em geral que é capaz de vibrar mais com o insucesso dos outros do que com os seus próprios sucessos – talvez porque não tenham nenhum para vibrar (?).
 Irei viver tanto tempo quanto a vida me deixar viver, provavelmente com o decorrer dos anos vou-me esquecer em que disposição táctica jogaram as equipas, estratégias de jogo, em que minutos ocorreram os golos ou o nome de alguns dos intervenientes que estiveram em campo, mas aquilo que aprendi ou que pequenos instantes como estes e que um jogo de futebol são capazes de me proporcionar, já nada nem ninguém me irá retirar.
 A não ser a própria vida, que em apenas 4′ minutos tanto pode fazer de mim um herói como um perfeito zero. E nesse dia, vou querer ser Okazaki.


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