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Copinha SP 2015: Quiéquié isso menino?

Copinha SP 2015: Quiéquié isso menino?

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 Com 104 clubes participantes divididos em 26 grupos naquela que foi a 46ª edição do maior torneio de futebol jovem do Mundo, a Copinha São Paulo 2015 consagrou como vencedor o Corinthians.
 Na habitual mescla de príncipes de bota bonita, moleques da favela ou meninos da roça, sol e céu azul, caipirinhas, temporais e chuvadas torrenciais, penteados excêntricos, piscinas olímpicas e gramados, foram diversos os momentos que marcaram mais esta festa do – nem tanto de – futebol.
 Se pela positiva há a destacar a belíssima campanha do Botafogo de Ribeirão Preto, já no que concerne a desilusões a fava saiu ao Santos FC, bicampeão 2013 e 2014, não conseguindo ir além da fase de grupos numa demonstração de como todos os interesses extra-futebol em redor dos seus quadros de formação – flagelo que de resto se alastra um pouco por toda a parte no futebol brasileiro – estão a prejudicar sobremaneira a reputação daquela que era uma das escolas mais respeitadas não apenas no Brasil como além fronteiras.
 Abaixo, alguns «retratos» para que se entenda o que acaba por ser a verdadeira essência deste torneio às portas da profissionalização em que apenas 28% dos futebolistas que disputaram a Final da Copinha nos últimos 5 anos, segundo dados do Globoesporte, conseguiram vingar na Série A Brasileira até ao fim de 2014:

 Pontapés Voadores
 
 Começando logo a rasgar, atentemos no jogo que opôs EC Bahia (2) e Grêmio Osasco Audax (0):
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 Bola aliviada para longe pelo Defesa-Central do Bahia que entretanto se esqueceu de baixar o pé – no mínimo arrepiante:
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 Perguntará agora o leitor.. «chispas, mesmo nas barbas do árbitro, o agressor deve ter sido expulso, não?»;
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 Não, não foi expulso o agressor, mas o adversário teve que ir para o hospital – até a bandeirola de canto ficou a «meia-haste» com tamanha atrocidade;
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 Já se percebeu que um dos Defesas-Centrais do Bahia é o chamado caceteiro, vamos agora ver o outro.. ai vai ele;
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 Completamente na bola como facilmente se percebe com o jogador do Osasco a ficar virado de pernas para o ar;
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 Resultado de mais um momento espectacular de futebol? Isso.. amarelinho para fazer mais dessas no resto do jogo.
 Mas como o futebol é muito mais que estas questões, vamos agora reflectir sobre outra vertente.. técnica pura, diria;

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 Certamente que será golo..;
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 Não.. não só não foi golo como a bola foi bater a fora do estádio.
 Depois de aprendermos um bocadinho sobre mentalidade, disciplina, desportivismo e técnica, vamos agora aprender um bocadinho de táctica, sim, táctica, uma vez que estes jogadores estão na última fase de transição para contexto profissional, convém dominarem o básico, digo eu;

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 Portanto, quando estiverem com um adversário enquadrado em posse nas redondezas da vossa Grande-Área defensiva o ideal será fazerem um círculo, darem as mãozinhas se necessário for em torno do mesmo – mas não o pressionem muito, deixem-no fazer o que lhe apetecer -, descobrindo por completo zona frontal da baliza que não serve para nada..ao mesmo tempo que um companheiro vosso fica a passear do outro lado do campo conferindo o estado da relva – ou falta dela – para o momento atacante seguinte;
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 Ah, da imagem acima resultou um dos dois golos do Bahia, aquela coisa que acontece por acaso quando alguém se engana, mesmo sem ninguém forçar. Bonito, sim senhor.. como um penálti corrido.
O esperto, o burro e o saloio..
 
 Depois de aprendermos tanto, vamos agora em busca de mais ensinamentos nesta Copinha 2015 pegando no jogo que opôs Botafogo/RJ (4) e São Carlos (3);
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 Emerson, Defesa-Central do Botafogo/RJ, capitão de equipa e que até é considerado como um dos jogadores com maior margem de progressão no clube, resolve assumir a execução de um livre lateral a castigar falta do São Carlos.. mas no último instante pensa que talvez faça maior diferença na Grande-Área adversária visto ser um elemento de estatura elevada, desistindo da execução;
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 Na passada do seu movimento, Emerson dá um ligeiro toque na bola – propositado – colocando-a em jogo (até agora confesso que não sei se foi tentativa de ser um esperto saloio ou foi só burrice pura), chamando a atenção do jogador do São Carlos, Tiago Garça, esse sim, astuto e concentrado;
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 E lá foi ele por ali afora.. golo para o São Carlos – mais um dos tais que acontecem por acaso nesta competição quando alguém se engana, mesmo sem ninguém forçar;
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 Dirá agora o leitor «épá, este até tem pinta de jogador, viu tudo antes de todos o garoto», bem, talvez não seja assim tão esperto e tenha alguma ingenuidade, como todos os puros mortais;
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 É que o festejo acima retratado dá direito a receber cartolina amarela.. e Tiago Garça já tinha uma. Resultado? Marcou, festejou, rua;
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 É isso, Tiago Garça não merecia ter acabado este jogo porque festejou um golo, ao contrário dos Defesas-Centrais do Bahia como vimos anteriormente. Esses sim, fazem muita falta ao futebol.
 Por falar em Defesas-Centrais, vamos espreitar os do São Carlos numa tentativa de perceber o que têm para nos ensinar numa situação de jogo limite;

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 Pois bem, a equipa do São Carlos estava projectada para o ataque no último «forcing» à procura do golo da vitória, deixando a retaguarda exposta da forma que ilustra a imagem acima.
 Convém estar em superioridade neste instante, mas atendendo ao momento de jogo, a equipa encontrava-se com uma situação de 4×2 por resolver, sendo que dois elementos do São Carlos, dos mais rápidos que a equipa tem, estavam já a transitar no acompanhamento defensivo do lance.
 Pedia-se, portanto, face às distâncias, que os Defesas-Centrais do São Carlos tentassem atrasar ao máximo a jogada do Botafogo de maneira a que os seus colegas conseguissem recuperar no terreno – na impossibilidade de garantir superioridade, pelo menos procurar a igualdade, ou seja 4×4+GR.
 O Defesa-Central do lado esquerdo do São Carlos, aparentemente, não tem a mesma opinião, e vai que não vai, tentou chutar e foi com tudo;

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 Resumindo, passou a bola, passou o adversário e a perna do jogador do São Carlos com tanta vontade só não se separou do corpo por acaso, transformando aquela transição de 4×2+GR (com probabilidade considerável de se transformar em 4×4+GR) num mero 4xGR.
 Golo para o Botafogo e final da história;

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 Não sei se algum leitor aguentou a sua sanidade mental até aqui, mas supondo que sim – na verdade acho que ninguém lê isto sequer – os meus Parabéns por serem mais loucos do que eu.
O Melhor Defesa-Central do Mundo
 
 Vejamos, por fim, para não massacrar porque haviam mais umas centenas, arrisco, milhares de situações passíveis de entrarem neste artigo, aquele que será porventura o Melhor Defesa-Central do Mundo.. para os adversários.
 Vamos fazer de conta que não sabemos o nome para não ferir susceptibilidades, só sabemos que joga no Murici/AL e que foi o responsável da melhor simulação/desmarcação da história no jogo que opôs o seu clube ao Palmeiras e que acabou com a vitória destes últimos por 6-1;

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 Pontapé de baliza executado pelo Guarda-Redes com a bola a dirigir-se para o Defesa-Central do Murici, ainda dentro da Grande-Área;
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 Com medo de cometer algum crime ao tocar na bola ainda dentro da Grande-Área – se o fizesse, o Pontapé de Baliza seria repetido -, o Defesa-Central do Murici, mesmo com o adversário já em cima, opta por encolher-se num primeiro momento, deixar a bola passar e correr para a frente quase que simulando uma desmarcação como quem foge à polícia (?);
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 Resultado? Exacto, mais um golo para a contagem do Palmeiras, notando-se igualmente o grande espírito e sentido de entreajuda do Defesa-Central do Murici que se encontrava no lado contrário, muito preocupado em fechar a cratera entretanto aberta como se subentende pela veemência da sua expressão corporal..;
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 Chateado com a situação, um colega de equipa indaga se o Defesa-Central do Murici adormeceu ou o que é que se passou com ele;
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 Retorquindo o Melhor Defesa-Central do Mundo: «Tá lóco cara? Não vê qui estava dentro da Grandxi-Área? Acha mesmo que ia tocar na bola, correr risco de repetir pontapé de baliza, quando podia deixar a bola redondxinha para o adversário fazer o gól? Pow moleque, você não entendxi nada.. aprendxi comigo»;
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 Com tanto ensinamento que a garotada dava dentro de campo, até o massagista do Murici, para que não faltasse nada aos «miininos», tentou ajudar e mostrar o que é ter prazer no ofício;
 


 Difícil de acreditar que muitos destes intervenientes, directos e indirectos, jogadores e treinadores, serão o futuro do futebol brasileiro num horizonte temporal não muito longínquo.
 Isto porque no Brasil existem massagistas para tudo.. menos para tratarem de Futebol – com F maiúsculo.
 Numa Copinha 2015 em que não se sentiu o mínimo progresso no futebol de base, antes até algum retrocesso, naquilo que é o valor individual dos atletas e o entendimento do jogo numa fase tão crucial para a carreira de um futebolista como o da transição última para contexto profissional, a Final que ditou vitória do Corinthians perante o Botafogo de Ribeirão Preto acabou por ser decidida por um frango daquele que se vinha a revelar como um dos melhores Guarda-Redes da competição, Talles, espelhando, de resto, os fracos espectáculos que se viram um pouco por toda a parte.

 Ressalva apenas para o já tradicional ambiente frenético nas bancadas da Final desta prova – cerca de 36 mil pessoas estiveram no Pacaembu -, registo mais digno que muitos, ou a maioria, dos jogos da Série A – a paixão está toda lá.. falta quem a saiba tratar.


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