55′ Minutos
55′ Minutos

Adormeci na primeira parte e quando acordei já havia sido dado o apito inicial para a segunda.
Ainda um tanto ou quanto atarantado, rapidamente fui assolado por um sentimento de culpa; «Será que perdi a melhor primeira parte de futebol do ano? Será que algum talento escondido por entre bundas e forrobodós havia saído do buraco, literalmente, e revelado todo o seu potencial a meter bolas na baliza?».. regressei ao meu estado natural – que por vezes é grogue – e feitas as contas só tinha perdido os primeiros cinquenta e cinco minutos do jogo entre Bragantino e São Paulo respeitantes à Primeira-Mão da 3ª Ronda da Copa do Brasil que os forasteiros levaram de vencida por 1-2.
Eternamente esperançoso que o que faltava decorrer do jogo ao vivo me empolgasse ao ponto de depois querer saber em diferido o que perdi, arrisquei o fundo da garrafa de gin para ganhar coragem e assistir aos últimos 35′ minutos do encontro:

O público assobiava a acção de Ademilson que ficou com a bola em sua posse sensivelmente na mesma zona do terreno durante 8 (!) segundos, enquanto o comentador televisivo dizia algo como: «Ademilson muito mal, a demorar e a querer jogar sozinho.»
Sendo certo que o avançado do São Paulo não é reconhecido por ser propriamente um jogador extremamente esclarecido ou consistente quando se trata de definir os lances, o que poderia fazer neste caso em concreto?
Para que um jogador possa decidir de forma inteligente primeiro precisa de ter opções.
Ademilson não tinha outra a não ser pegar na bola e ir até à linha de fundo, tirar cruzamento com poucas probabilidades de sucesso/ganhar pontapé de canto ou conservar a posse, aguardar a aproximação de um dos seus companheiros, neste caso de um dos médios interiores em apoio atrasado/cobertura e resolver a situação da forma mais adulta possível – o que acabou mesmo por acontecer.
Resultado: com esta acção reduziu ao mínimo a probabilidade da sua equipa perder a posse, numa altura que estava em vantagem no marcador, permitindo reorganização do processo ofensivo e a procura de novas soluções na tentativa de desequilibrar a organização defensiva adversária.
Por ter tomado uma opção inteligente, coisa rara de ver no futebol brasileiro, Ademilson foi assobiado por adeptos e criticado por pseudo-comentadores futebolísticos.
E quando tomou uma opção menos esclarecida como a retratada abaixo, uma vez que optou pelo remate quando para lá dos adversários até tinha dois companheiros a cortarem linhas de baliza, sendo que um deles estaria em situação de fora-de-jogo, ao invés de tocar no apoio do colega mais próximo para explorar todo o espaço que podia ser aproveitado e chegar a uma resolução potencialmente mais eficaz, acabou aplaudido por adeptos e elogiado pelo comentador:

Nota ainda na mesma situação para o comportamento de Pato, que com todo o tempo para «ler a linguagem corporal» do seu companheiro e o que este iria fazer, nem se deu ao trabalho de rodar para ficar de lado e ocupar menos espaço de baliza, assim como, facilitar uma possível recarga posterior caso o guardião contrário não conseguisse segurar a bola a um tempo.
Resultado? Serviu de defesa adversário e cortou uma bola que levava selo de golo.
O grande problema da carreira do avançado brasileiro é que continua a insistir em ser mais Pato que Alexandre.
Jogadores cheios de vontade e focados no jogo, muito ritmo e ambição, com índices de motivação no máximo capazes de contagiarem qualquer adepto. Ou então não:

Salvavam-se momentos de pura magia individual que Ganso ia espalhando a espaços e de forma irregular um pouco por toda a parte do campo.
Se as restantes dimensões do futebol de Ganso tivessem metade da dimensão técnica do seu jogo, o Mundo choraria para o ver. Mas não têm e o Mundo chora por essa falta:
Continuar a ver situações como Rogério Ceni a bater livres ou grandes penalidades com frequência, confesso que me causa uma certa urticária espontânea.
A não ser que existam dados estatísticos que fundamentem devidamente esta opção de risco – ou seja que a taxa de sucesso dos livres ou grandes penalidades batidas por Ceni seja incomparavelmente superior às taxas de sucesso de qualquer um outro especialista jogador de campo que exista no plantel e esteja em jogo -, não a consigo entender mais do que uma manobra de marketing que pouco ou nada tem a ver com futebol na sua essência.

Com a quantidade de recursos envolvidos no processo, sendo que um deles é o Guarda-Redes, Ceni tem duas únicas hipóteses de anular o risco de transformar uma situação de perigo a favor da sua equipa numa situação de perigo contra: marcar golo ou ganhar pontapé de canto.
Tem ainda outra hipótese de reduzir o risco de forma considerável, mas não de o anular: o livre resultar em pontapé de baliza com um companheiro posteriormente a evitar reposição rápida.
Em qualquer outra situação o pânico e o perigo iminente para a sua baliza estará lançado, principalmente se do outro lado estiverem equipas astutas no possível aproveitamento desta situação momentânea do jogo.
Na imagem acima refira-se ainda que o «efeito Mundial 2014» parece já ter passado, o jogador do Bragantino destacado não só não está à distância regulamentar, como no momento em que o livre foi executado, ainda se deu ao luxo de estar mais próximo do executante, tudo com a complacência do árbitro – ou é alguma regra que desconheço ou é o típico rigor brasileiro a funcionar ao mais alto nível.
O facto de no futebol brasileiro existir tempo e espaço para fazer um filho e ser avô durante a maioria dos jogos, já não é propriamente uma novidade, mas debrucemos um pouco da nossa atenção sobre Rodrigo Caio, Médio-defensivo entretanto adaptado a Defesa-Central e que é, neste momento e quanto a mim, um dos jovens talentos com potencial de maior projecção do futebol canarinho para poder vir a ser enquadrado no futuro num contexto competitivo superior:

Repare-se para onde está a olhar Rodrigo Caio: se no futebol europeu um simples virar de pescoço idêntico podia ser sinónimo de um «já foste», no futebol brasileiro existe tempo para que tal aconteça.
São pequenos vícios que passam muitas vezes despercebidos mas que podem fazer a diferença na maior ou menor capacidade de adaptação de um talento a contextos competitivamente mais exigentes.
Pese embora todos esses factores, este simples virar de pescoço de Caio, revela também aquilo que procura na maioria das situações: a intenção de tomar decisões inteligentes.
O jogador brasileiro procurava uma referência dos colegas e do adversário, ou seja, perceber se havia alguma hipótese de ter cobertura de um companheiro ou se a sua equipa iria ficar exposta a uma situação de inferioridade, igualdade ou superioridade nas suas costas, para que depois e consoante essa percepção visual, pudesse saber ou escolher numa fracção de segundo, a melhor forma de abordar o adversário: contenção para atrasar ou arriscar abordagem mais agressiva para tentar a recuperação imediata.
Atentemos agora noutra situação com o mesmo interveniente.
Decorrem 83′ minutos de jogo, a minha equipa está com vantagem forasteira de dois golos na 1ª Mão de uma Eliminatória, o que faz Rodrigo Caio?
Assume uma decisão de risco e, em momento algum, procura recuperar no terreno, ficando no ataque para aproveitar uma hipotética superioridade numérica ofensiva potencialmente vantajosa, após a marcação de dois pontapés de canto consecutivos a favor da sua equipa e mesmo depois de a bola já estar na posse dos seus colegas no seu meio-campo defensivo:

Ora, uma vez que não possui o dom da ubiquidade, logicamente, algum colega teve que compensar o seu desvario, assumindo a sua posição original no centro da defesa, enquanto um outro teria que assumir a do seu companheiro entretanto deslocado na compensação e assim consecutivamente, para que fosse garantido o equilíbrio defensivo.
Cerca de 20 segundos depois – repare-se onde ainda está Caio em recuperação no terreno – a imagem inicial resultava no golo do Bragantino:

Ainda que decorrente de uma série de péssimas abordagens por parte de alguns dos seus companheiros, a verdade é que a situação ilustrada acima só aconteceu devido ao desvario inicial de Caio, gerando desordem na sua equipa quando a atitude ideal atendendo ao momento e resultado verificado, seria o conforto e a organização.
Porque é completamente diferente tomar uma decisão numa situação de conforto do que tomar uma decisão sob-pressão ou diria por obrigação:

Rodrigo Caio voltou a precipitar-se e ao invés de deslocar-se para uma zona de protecção da baliza, sugerida com o círculo vermelho, optou por esboçar reacção ao adversário colocado na direcção do primeiro poste e que já estava controlado quer por um companheiro, quer pelo Guarda-Redes.
No caso de Caio ter optado pelo círculo vermelho sugerido, não só cortaria a linha de passe na deslocação onde a bola – por acaso ou não – acabou mesmo por entrar, como teria tomado a decisão mais sagaz já que era no meio da baliza e no segundo poste que o adversário estava em «igualdade dominante» (2×2 sem Guarda-Redes).
Tudo isto, claro, na teoria e de imagem parada em que tudo é demasiado lógico e fácil, mas que mesmo assim, não raras vezes, ainda me faz cometer erros de leitura ou mudar de opinião.
E enquanto os colegas protestavam todos uns com os outros, Rodrigo Caio aprendia – é assim mesmo cara, bola p’ra frente, aprender errando e levantar a cabeça para depois acertar:

Quanto a mim, suspirei a olhar para a garrafa de gin vazia e na incapacidade de me fazerem sonhar acordado, desliguei a TV e fui sonhar a dormir.
Não cheguei e penso que nunca chegarei a ver, os 55′ minutos que não vi, mesmo que tenham sido os melhores 55′ minutos de futebol do ano. Prefiro sonhar.
5 Agosto, 2014